Escritas do fundo do mar

06
Mar 08
Na estranheza matinal de uma deslocação enlatada para o emprego, vejo, depois de uma curva, surgir repentinamente um ser vestido de escuro com uma grande proeminência amarela fluorescente ao centro, a acenar vigorosamente.

Ainda pensei ser alguém a avisar-me de um acidente ou de uma catástrofe, mas não… era um simpático militar da Guarda Nacional Republicana a mandar-me parar. Passada a primeira frustração por estarem naquela curva que curvo todos os dias, no único dia que vim de carro, ainda fiquei contente comigo mesmo por ter saído de casa mais cedo que o habitual.

Continência feita, com a unhaca do mindinho quase a tocar na pala (tal era a sua plenitude pontiaguda), surge uma voz rouca a silvar cuspiosamente (não é uma gralha, vem mesmo de cuspo! Talvez “derivado ao facto” de não existirem os principais dentes da frente de tal cremalheira da autoridade):

- Bom dia Shô Condutor, faculte-me os sheus documentos e os da viatura she fizer favor.

- Bom dia Sr. Guarda. Com certeza! Aqui está… carta… livrete e registo de propriedade… seguro…

Enquanto a autoridade inspeccionava do alto da sua magnificência superior, os meus documentos, decido-me por uma abordagem parvó-espertalhona a roçar levemente o humor sem piada, mas com pitadas de quem pensa que sabe muito:

- O Sr Guarda acha que o meu trabalho prejudica o seu?

- Não, porquê?

- Porque vendo bem, o seu prejudica o meu!

- Acha que shim?

- Acho, porque a mandar-me parar a esta hora da manhã, eu vou de certeza chegar tarde ao emprego. E se chegar e disser ao meu chefe que fui mandado parar pela polícia, acha que ele acredita?

- Isho já é problema sheu e do sheu patrão. Eu no lugar dele acreditava… entretanto faculte-me o comprovativo de imposto de shelo, she faz favor.

Primeiro sinal de alerta, primeira explosão do meu reconhecimento interior de que já estava a ficar entalado! No visor da minha consciência acende-se a luz dos €! O sorriso de Chico-esperto começava a fugir pró rabo! Decido-me pelo já tradicional remexer de todos os papéis e mais alguns, na esperança de encontrar o que sabia que não podia ser encontrado…

- O selo… o selo… ora bem, o selo… tenho aqui este papel…

- Pois é um como este, mas de 2008. Este é de 2006!

Mais um som de sirene de quartel de bombeiros na minha cabeça e a quase certeza de que já não me safava da talhada… remexo mais um pouco nos papéis, abro o porta-luvas, vejo nas portas… nada! Tou tramado! Que maneira de começar o dia!

- Mas sabe Sr Guarda, eu paguei pela internet juntamente com o selo da mota e…

- O shô condutor não viu na televishão que agora os shelos she pagam no mês de compra do veículo?

- Por acaso não vi, mudei há pouco tempo e ainda estou assim meio desarrumado…

- E já agora faculte-me também o papel da inspecção…

BANG!! Desta é que parecia que ia rebentar por dentro… a inspecção?! Mas que m**da! Não mexo no carro há tanto tempo que não me lembro de nada destas coisas! Em pânico, decido continuar a apostar na pseudo-perplexidão de quem é apanhado de calças na mão… gaguejo mais um bocado… remexo mais nos papéis e… desisto! Perante as evidências, baixo as minhas defesas e confesso o meu crime à autoridade…

- Pois não tenho… tenho o carro parado há muito e não me lembrei… que azar logo hoje peguei no carro e… bem, o que posso fazer então?!

Ajoelhei-me na consciência e esperei a machadada final. Imaginei a minha cabeça a cair no cesto da razão evidente da autoridade e comecei a fazer contas à vida… Mais uma vez o militar da GNR se engrandece (eu já olhava para ele como se estivesse no primeiro andar e eu cá em baixo), recorre a toda a sua sapiência de pedagogia rodoviária e remata:

- Shô condutor, pode pagar agora o shelo de livre vontade mais uma multa de 30€ ou então she não puder, ou não quisher pagar, apreendo os sheus documentos e prochede ao pagamento mais tarde…

- Eu pago sim, mas quanto é?

- 50€ do shelo, mais 30€ da multa.. quanto à inspecção vou fingir que nem vi e não diz a ninguém que asshim foi… pois a multa respectiva shão 250€!

Perplexamente aquiesço perante tal benevolência da autoridade e penso humildemente que afinal aquele ser tão prosaicamente português acabara de ser bem simpático perante as evidências. Naquele momento decido que não voltava a pensar mal de todos os polícias e enquanto caminhava de volta ao carro, depois de deixar a parte detrás do veículo da GNR onde os dois agentes tocavam barrigas enquanto preenchiam autos, pensei… bem, afinal, podia ter sido pior!




O meu obrigado ao simpático e bem disposto cabo da GNR que esta manhã me mandou parar, ouviu as minhas parvoíces e ainda esperou que eu fosse levantar dinheiro para pagar uma pequena parte de uma ainda maior infracção. Ele há dias de azar com sorte!
Bilhetado por Brunorix às 15:48
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