Escritas do fundo do mar

12
Fev 09
(Lamy passou por cá)

- Então Lamy, que tal?
- É um blogue fantástico!





Bilhetado por Brunorix às 12:49

11
Fev 09
MAÇÃS SALGADAS #2

Os meus dedos aterrorizados cravaram-se na maçã indiferente, com a força do sumo que já escorria. Vinda do fundo do medo, uma onda de energia fez-me correr como nunca na direcção do muro e do respectivo salto salvador.

O dono do berro, não se deu ao trabalho de correr atrás de mim, mas agarrou na famosa espingarda (sempre pensei que ela não existia) e apontou-a num gesto claramente repetido vezes sem conta, enquanto eu corria com a minha experiência cinematográfica, isto é, em ziguezague.

Ouvi uma primeira saraivada salgada, mas parecia estar tudo bem pois não senti nada. Ainda estava a correr e o muro estava próximo. Só falta o salto… saltei!

Do lado de lá da aterragem, a multidão de olhos curiosos, fazia perguntas sem sequer falar. Ainda bem que as maçãs cheiram, pois aquela massa disforme e esmagada que eu ainda apertava, parecia tudo menos uma maçã. Prova superada!

De volta à sala de aula não se falava de outra coisa, eu tinha finalmente marcado pontos e aquele dia era meu. Estava inchado de orgulho e não cabia no contentamento do meu casaco. Assim que me sentei levantei-me logo, um calor doloroso acabara de atacar uma zona do meu corpo que devia ser ali para os lados do fundo do rabo, ou do cimo da coxa, não sei bem. Pensei que me devia ter arranhado no salto e sentei-me mais devagar.

Os cinquenta minutos de aula seguintes foram dolorosos e, apenas refrescados, pelo meio, por alguns olhares de cumplicidade e admiração. No intervalo arrastei a minha dor à casa de banho e na intimidade do cubículo sanital, baixei as calças para uma inspecção mais minuciosa. O resultado da minha pesquisa tinha revelado, não só um buraco nas calças, mas outro na tal zona do meu corpo. Eu tinha levado um tiro de sal!

Anos passados, muros e maçãs também, e uma pequena marca ainda hoje me lembra o preço da aventura. Podia ter corrido mal, mas não correu e, sobretudo, ninguém soube da marca infligida. Para a história (a minha) fica a memória de uma fase da vida em que todos os dias nos púnhamos à prova e onde o perigo inconsciente espreitava… atrás das árvores do crescimento.

Ainda gosto de saltar muros, mas prefiro maçãs sem sal.



Bilhetado por Brunorix às 16:10

Os livros são os túmulos dos que não podem morrer.

George Crabbe


George Crabbe
(1754-1832)

Bilhetado por Brunorix às 11:54
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10
Fev 09
Abençoados os conhecimentos deste mundo (e do outro), que nos fazem sair do caminho e nos permitem sorrir no orgulho alheio. Sonhos escritos, são realidades impressas em tardes de partilha.

Os eventos com livros, à volta dos livros e sobre livros, não param de surgir ao virar de cada página descrita (de escrita). No passado Sábado dirigi a minha expectativa de leitor na direcção da certeza escrita e entrei na sala da confirmação publicada. Desta vez, foi uma amiga (também daqui) que lançou, mais, duas preciosidades (eu agarrei uma de cada) para juntar ao espólio que a eternizará. Um livro sobre livros e um livro sobre a árvore que há em todos nós crianças. Respectivamente: Banquete de Textos e A Tia Árvore.







P.S. - Quem quiser saber mais sobre a autora e os livros e o blog e os livros e a autora, pode e deve passar pela sua (dela) casa...


Bilhetado por Brunorix às 19:16

Várias vezes pensei que não conseguia responder a perguntas como: qual é o filme da tua vida? Não consigo porque me custa escolher um entre tantos e gosto facilmente dos filmes que vejo. Não todos, mas bastantes. No entanto, de quando em vez deparo com maravilhas como este Slumdog Millionaire (Quem quer ser bilionário?) que guardarei com toda a facilidade na minha galeria de memórias a lembrar… sempre!




Quando um filme me consegue prender à cadeira com 120 minutos sempre em alta, eu guardarei para sempre no meu baú de tesouros, todas as emoções que senti. Do choque à emoção, passando pelo riso e chegando à ternura, tem de tudo. Em quantidade, em qualidade e com bom gosto. Podem vir todos os iluminados (frustrados) que dizem barbaridades como esta, ou esta, mas para mim (mero espectador ignorante que procura apenas prazer no cinema) este filme é, sobretudo, uma verdadeira história de amor, e não podia concordar mais com isto. Que GRANDE filme! Os indianos (revoltados) que não se preocupem porque o que fica retido nas pessoas não é a imagem de Bombaim, mas a emoção que levam por dentro quando saem a sorrir da sala.




E a música…? Perfeita! Agitou-me as chamuças da alma e não parei de abanar o pezinho! Ri, chorei, contorci-me na emoção do assento... adorei! Por mim, está entregue o Óscar!


Bilhetado por Brunorix às 11:50
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09
Fev 09
Foi clara a decisão da maioria. Enquanto as últimas notas do Solista ainda se fazem ler, 60 em cada 100 membros deste Clube tomaram a sua decisão, sob a forma de 9 dos 15 votos.

Já antes pensado em emitidos bilhetes neste blogue, O Jogo do Anjo de Carlos Ruiz Zafón vai ocupar as nossas mentes literárias nas próximas duas semanas. Aqui fica uma sinopse e um excerto:

SINOPSE:

Na Barcelona turbulenta dos anos 20, um jovem escritor obcecado com um amor impossível recebe de um misterioso editor a proposta para escrever um livro como nunca existiu a troco de uma fortuna e, talvez, muito mais.

Com deslumbrante estilo e impecável precisão narrativa, o autor de A Sombra do Vento transporta-nos de novo para a Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos, para nos oferecer uma aventura de intriga, romance e tragédia, através de um labirinto de segredos onde o fascínio pelos livros, a paixão e a amizade se conjugam num relato magistral.




EXCERTO:

Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.


Relembro que todos os livros do Clube que já foram lidos, podem sempre ser comentados, bastando para isso escolher um dos links ali do lado direito. Bons comentários e ainda melhores leituras.

08
Fev 09
Terceira comemoração centesimal e a certeza de que este Bilhete veio para ficar. Já não me vejo sem ele e confirmo o exercício de aquecimento de uma aula de escrita criativa, em que se pedia em 30 segundos para justificar o porquê de escrever:

Escrevo, pelo fascínio de amontoar palavras de tijolo para construir edificios de leitura.

É essa construcção diária que me traz aqui todos os dias para colocar mais um tijolo. Agora que cheguei ao 300º andar ainda me surpreendo com a altura alcançada. Aqui em cima o ar já tem outro peso literário e por vezes é preciso respirar palavras e mais palavras para aguentar a pressão atmosférica da escrita.

Cada tijolo colocado, cada degrau subido, cada Bilhete emitido tiveram o condão de me fazer ler mais, de me ensinar a escrever, de me impulsionar na partilha de palavras e na descoberta de um mundo novo. Tenho vivido com livros, tenho rodeado os dias de acontecimentos literários, tenho respirado e absorvido influências escritas e trocas de leitura.




Sinto o vício das palavras a correr nas veias da escrita e espero chegar ao céu da criatividade, colocando cada vez mais e mais tijolos. O meu edifício de leitura irá continuar a emitir Bilhetes de Ida, assim me ajude a imaginação e a vontade.

Obrigado a todos os que foram subindo os degraus e que foram colocando massa crítica para segurar esta construção partilhada. É minha a vontade que a cria, é vossa a razão que a habita.
Bilhetado por Brunorix às 15:31

- Queria uma factura, por favor.
- Concerteza. Em que nome fica?
- É em nome da empresa. São só siglas: A... N... C...
- C de sapato?
- ...


Ainda pensei responder que não, que era com S de caixa, mas engasguei-me no riso contido e não consegui.

Funcionária Anónima
(Bilheteira da CP em Aveiro)

06
Fev 09
A 220 km por hora, os olhares cruzaram-se. Entenderam-se. Gostaram-se. As paragens seguintes foram em jogo de sedução. Olhar para cá, olhar para lá, esboços de sorrisos disfarçados, seguidos de sorrisos escandalosos.

Tudo parecia correr sobre carris. As vontades deslizavam no mesmo sentido e o jogo continuava. Ela abriu mais um botão da camisa e deixou antever uns voluptuosos seios, cercados por uma renda preta que insistia em espreitar. Ele agradeceu o vislumbre com um sorriso lascivo. O volume nas suas calças aumentou. Levantou-se para que ela o visse.




Uma passagem de revisor mais à frente, e ela vem na sua direcção com uma determinação sensual. O botão estava de novo apertado, mas o desejo dos seus seios não se conseguia disfarçar. Dois eróticos e excitados mamilos pareciam querer romper a camisa que os sufocava. O mundo olhava para eles, mas eles só olhavam um para o outro. Ao passar por ele, sussurrou:

- Daqui a 5 minutos no WC da esquerda. Duas pancadas, pausa, três pancadas.

Uma bola de fogo lúbrico percorreu o seu corpo em excitação antecipada. Esperou ansiosamente que passassem aqueles que foram, sem dúvida, os maiores e mais demorados 5 minutos da sua vida. Finalmente passados, dirigiu-se à porta indicada. Bateu duas vezes, esperou, bateu três vezes. A porta abriu e fechou num pasmar de olhos.

Lá dentro, os olhos reencontraram-se. Os risos reconheceram-se e os cheiros conheceram-se. As bocas juntaram-se sem palavras. As respectivas excitações ainda lá estavam. O espaço era lascivamente pequeno e o afastamento era felizmente impensável. Entre os corpos só cabia o calor da roupa a mais e as peles ansiosas de contacto, gritavam por liberdade. Concedida. Na medida do impossível, desapertou-se o que havia para desapertar.

Ela sentou-se no tampo da pequena sanita e entregou-se à descoberta do volume antes visto e imediatamente abocanhado. Um gemido contido dele, ecoou no pequeno cubículo. Sentiu a língua dela na sua intimidade oferecida e agradeceu mentalmente aquela viagem. Decidiu agradecer mais que isso e trocaram de posição.

Agora ela de pé. Num gesto quase maternal afagou a cabeça cuja boca já lambia com volúpia os seios que se confirmavam fartos. Continuou a descida exploratória e por baixo de um ventre perfumado arrancaram-se cuecas à dentada. Ela sentiu-se a escorrer por dentro, enquanto outros lábios se juntavam aos outros seus lambendo todo o seu desejo húmido.

Sem aguentar mais, ela sentou-se na explosiva erecção que aguardava impaciente o seu interior. Desta vez o gemido foi duplo. O balançar da carruagem aumentou o prazer. Lá fora ouviu-se o anunciar indiferente da estação seguinte.

- É a minha. Gemeu ele.
- A minha também. Suspirou ela.




Aceleraram o êxtase na loucura do tempo final e rebentaram em conjunto, mordendo-se de prazer mútuo. Em vez de números de telefone, trocaram orgasmos. Sensações vividas à pressa e vestiram-se no sorriso do cansaço acabado de chegar ao destino.

Lá fora, na plataforma os respectivos compromissos esperavam, por coincidência muito próximos. Beijos e abraços depois, anuncia-se em voz alta o sucesso da viagem e a necessidade de a repetir na semana seguinte.

Negócios da vida pendular!


* - Alfa Pendular, 06 de Fevereiro de 2009 (Aveiro – Lisboa).
Bilhetado por Brunorix às 19:43

05
Fev 09
Maria vai com os outros

Apenas Maria, menina agora de bem, nasceu no fundo de uma bacia depois do esforço de sua mãe. O berço, de outrora latão, foi esquecido a rezar o terço, bem apertado na mão e segundo doutrina de sua religião. Fez-se à vida da conquista, agarrada ao sonho de mais, sem nunca perder de vista, objectivos, desejos e outros que tais.

Cedo estudou pose e altivez de confiança, largou depressa criança e cresceu muito e sempre mais. Já nem era reconhecida pelos próprios pais. Esses mesmo que escondeu numa gaveta, que isto de conquistas endinheiradas é assunto de saias travadas e ai de quem no meio se meta.

Andou por festas e outras andanças, sempre em almofadas de ilusão. Deitou mão e enfeitou testas, deste, daquele e ainda do irmão. Ganhou fama de abertura fatal e engordou cofre de cagança, pois vida ganha na horizontal, nem sempre dá segurança, mas quem muito coisa sempre alcança. Juntou muitos nomes ao que tinha, pomposos o quanto baste, sempre segurando na pontinha da sua bandeira de traste.




De cama em cama viveu na sombra, de vidas ganhas por sangue. Perscrutou vida de abutre, com voos de escolha langue. Aprisionou conquistas de perna, guardou vitórias em rodilha e ainda deixou na camilha cartas de gente terna com toques de muita matilha.

Assim vivia com a luxúria do que ganhava no ano, até que apareceu tal figura, de corpo presente bacano. Perdeu-se de amores em revista, e pela primeira vez a conquista foi do outro, o tal de Elmano. Também ele se deitava a ganhar, vivendo em lençol de jeito quente. Se o queriam sentir e cheirar, pagavam bem e sempre à frente!

Trocada de voltas Maria, foi vitima do que sempre foi, quando viu que o cofre lhe fugia, chamou-lhe para cima de boi. Afinal deixou-se levar por encantos tantas vezes usados, que isto de saber muito trás sempre quem sabe, outros truques igualmente cantados.

E assim se fez volta à origem onde esteve sempre a pia, que esta de novo apenas Maria, sopra agora anos de fuligem e abre gavetas que já não queria. Em jeito de moral e conclusão, diz-se que quem alto voa sem estender a mão, sempre acaba a andar à toa seja de berço de ouro ou talvez não.
Bilhetado por Brunorix às 18:27

Um com características completamente diferentes um do outro, e por isso jogam bem um com o outro.

Jorge Baptista
(Comentador SIC)


Não desesperem os pais das criancinhas lesadas, pois a solução já anda por aí. Neste país de atrasos e de atrasados (mentais) há sempre uma volta que esconde a derrota. Azul para os meninos, rosa (não se choquem) para as meninas…




Bilhetado por Brunorix às 12:29
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04
Fev 09
MAÇÃS SALGADAS #1

Cheirava a fruta e a medo. A separar, um muro de pedra e areia que se ia desfazendo com o passar dos anos para o lado de lá e dos corajosos em sentido inverso. Sempre foi o grande baptismo daquela escola: conseguir trazer uma maçã para provar a ida. O sabor? Esse podia ser deitado fora.

Quarta-feira de aventuras. Já andava naquela escola há 3 meses e ainda não tinha saltado o muro. Já não conseguia fugir ao ritual de aceitação. Tinha chegado o meu dia.

Regras: saltar o muro que ficava nas traseiras da escola e voltar com uma maçã.

Primeira condicionante: do lado de lá do medo havia uma quinta com muitas árvores.

Segunda condicionante: as de fruta eram as mais longe do muro e as mais perto da casa.

Terceira condicionante: conseguir voltar são e salvo porque, segundo constava, o maluco do velho que lá vivia disparava sobre os miúdos que lá entravam.

Quarta condicionante: disparava mesmo. Embora fossem tiros de sal, faziam uma ferida dolorosa e eram o símbolo da derrota.




O ritual exigia que as regras fossem ditas em voz alta momentos antes da partida. Nesse dia nem as consegui ouvir e deixei que fossem abafadas pelos nervos. Os sons iam para o estômago e na cabeça só ouvia o coração. Já tinha as mãos encostadas à inevitável escalada e ainda hesitava. Os olhares de todos convenceram-me.

Passar para o outro lado era a parte fácil pela execução, mas difícil pelo que se seguia. Quando aterrei no chão que me esperava, estava a suar. As pernas tremiam e o corpo colava-se ao muro. As árvores eram horrivelmente bonitas e assustadoramente convidativas. Caminhei na direcção do cheiro, mas parecia nunca mais lá chegar. A única árvore que tinha maçãs, ficava mesmo junto à janela da casa do velho.

Dois troncos antes do objectivo fruto, parei para respensar (que é uma espécie de respiração do pensamento), acalmei as pulsações e comecei a correr com a determinação mais assustada que tinha. Agarrei a maçã com a pressa da alegria e no regresso vitorioso deixei-a cair.

Voltei atrás para cumprir o destino honroso e no momento em que apanhei o frutado prémio, ouvi um berro que me aqueceu o pânico…


(continua)

03
Fev 09
A intuição é aquele estranho instinto que permite a uma mulher saber que está certa, esteja certa ou não.

Helen Rowland

Helen Rowland
(1875-1950)
Bilhetado por Brunorix às 17:10
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02
Fev 09
Depois de um Sábado a valsar e de um Domingo a trocar, hoje ainda deu para usar o cartão mágico, mais uma vez. Como novidade, um post feito no espaço Medeia com internet grátis para quem tem cartão!

Sem muito tempo, deixo apenas a convicção de que a história é feita de muitas histórias. Esta, que também é verdadeira, impressiona pela força que é preciso para ter coragem e pela coragem que é preciso para continuar a ter força.


Bilhetado por Brunorix às 22:09
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