Escritas do fundo do mar

15
Jan 09
Enquanto nos deliciamos com as iguarias escritas deste cozinhado a solo, a sugestora desta obra continua a actualizar-nos sobre tudo o que o acompanha. Aqui fica o condimento para uma outra degustação. Cruzam-se as artes…

http://www.soloistmovie.com/

Este site mantém o sabor de qualidade do livro e, para além do filme, é possível conhecer, e ler, as crónicas originais de Lopez no LA Times, conhecer, e ouvir, o verdadeiro Nathaniel e saborear toda esta realidade que envolve esta história. E boa música, claro.




Bilhetado por Brunorix às 16:11

No distrito de Bragança os miúdos andam todos à porrading. Não é novidade nas escolas, a diferença é que o chapading e o insulting agora são coisa de estrangeirismo. Já não se arrancam olhos, já não se chamam nomes, já não se cospe uns nos outros, já não se intimidam os mais fracos, já não se deixa ninguém de lado, já não se goza com esta ou aquela característica, agora… pratica-se o bullying!

O conceito define "comportamentos de natureza agressiva, entre pares, com a intenção de provocar dano", coisa que sempre houve em todas as escolas do país. A questão é que agora tivemos mais um atropeling na nossa língua e por isso o bullying veio para ficar. Não o conceiting, mas a palavring!

Não posso deixar de concordar com esta sátiring





P.S. – Não retira valor nenhum ao estudo, nem ao facto de os miúdos andarem cada vez mais violentos. Efeitos do Playstationing, do interneting, dos filmings, etcing??


- Tá tudo ponto?
- Tá quase, falta o pudim.
- E chega?
- É mexer bem e… ca ta, flan pa todos!



Bilhetado por Brunorix às 11:30

14
Jan 09
Estava encharcado até ao avesso da alma. Chovia copiosamente em todas as direcções do sentimento e começava a ter frio. O chapéu de chuva aparente, estava roto na determinação e deixava passar tudo. O sol tinha desligado ontem e os ossos do ânimo estavam agora realmente gelados. Estavam gelados de medo, gelados de frio, gelados de companhia.

A solidão dos acompanhados esconde a poesia interior em frases de banalidade diária: bom dia, até logo, boa noite, até amanhã… – O relógio da estação mostrava em monotonia de movimento que ainda faltavam 20 minutos para a partida do seu funeral. Tinha tempo. Sempre tivera.

Tentou secar algumas considerações para ver se aquecia a partida. Despiu o casaco molhado de mágoa e sentou-se na determinação da espera reflectindo entre pensamentos sobre a questão que o atormentava: será que alguém iria ter saudades suas?

O mesmo relógio, da mesma estação, na mesma monotonia, mas alguns movimentos mais à frente, mostrava que os 20 minutos tinham passado. Já não tinha tempo. Nunca tivera. O seu funeral estava a partir. Correu na determinação do alcance e com uma agilidade rara em si, saltou de uma só convicção deixando a plataforma boquiaberta enquanto entrava na primeira carruagem.




Sacudiu o casaco já seco de pensar e olhou em volta para algumas pessoas que o choravam. Familiares que nem sabia que tinha, dividiam lenços do mesmo papel enquanto fungavam entre dentes a perda do seu ente querido. Algumas recordações sobre o seu crescimento trouxeram sorrisos luminosos no meio de tanta lágrima cinzenta. Ali parecia estar a ser recordado com saudade.

Passou para a carruagem seguinte, onde os seus amigos de toda a vida confraternizavam entre copos e cantavam sobre as histórias da saudade. Acabou por rir também ao rever tantos episódios em que era protagonista e já nem se lembrava. Ali era decididamente recordado com alegria.

Na carruagem seguinte, além de confirmar que ninguém parecia dar por ele desde que saltara da plataforma, não reconheceu ninguém. Algumas frases depois, fez-se luz no seu espírito e percebeu o conteúdo: eram os seus leitores. Todos aqueles que o leram e gostaram e que não o conhecendo pessoalmente agradeciam todas as viagens que as suas palavras lhes proporcionara, todos os sonhos das suas frases, toda a imaginação da sua pontuação, toda a poesia das suas prosas. Ali era recordado com admiração.

Saltou para a última carruagem e não viu ninguém. Cheirava a destino e uma luz ténue de resignação apontava para o meio onde estava o seu caixão aberto e vazio. O interior acolhedor estava à sua espera ansiosamente e pedia em tom mavioso que se deitasse. Estava tudo preparado para a chegada à estação terminal. Esboçou movimentos vários no sentido da sua horizontalidade final, mas não conseguia concretizar. Num repentino assopro de revolta puxou a alavanca de emergência e tudo parou.

Saltou para a paisagem fresca de esperança e correu ao longo das carruagens no sentido da partida. Todos se amontoavam nas janelas para o ver passar. Uns pediam autógrafos, outros pediam canções, outros pediam atenção, mas todos sorriam e acenavam de emoção. Ainda não estava preparado para aquela viagem.

Voltou para o lugar de sempre, sentou-se e escreveu até à manhã do conto seguinte. O sol estava de novo ligado.



Bilhetado por Brunorix às 16:44

13
Jan 09
São duas palavras facilmente associadas a lágrimas de 7ª arte, em canto de olho triste após um qualquer drama ou romance. São também associadas a ciclos que terminam, a portas que se fecham, a chamas que se apagam, a relações que se cortam, a objectivos que se alcançam, a tudo o que tem manhã, tarde e noite.

Hoje foi noite todo o dia...

... porque foi (re)semeado o fruto mais Avô do pomar, que não sendo meu podia ter sido, e que ocupava o topo de uma árvore de laços de fruta, originando o subir de um degrau genealógico na escada familiar. Deixou um legado de memórias e partilhas, escrito em tom de abraço de certeza e de continuação de caminho, expresso em testamento de vontade. A união dos outros frutos solidificou-se e exterminou bicho e ervas daninhas, numa sucessão natural de frutos pais e filhos, frutos tios e sobrinhos, frutos netos e bisnetos, frutos enteados, frutos primos e frutos convidados. A passarada de circunstância assistia na ânsia...


O pomar hoje ficou mais cinzento, é verdade, mas vai recuperar a cor amanhã quando os novos frutos subirem ao pódio da liderança e a passarada fugir para outras semeadas. O vazio criado pelo mistério da incompreensão e da agonia da repetição de rituais desgastantes, será preenchido pelo olhar em frente. O caminho a seguir está traçado e garantido.

Quando mais não resta se não pensar, move-se a caneta da partilha em escrita de embalar. Levantam-se as questões e cantam-se, dobram-se as memórias e guardam-se, enxugam-se as lágrimas e bebem-se, homenageiam-se as frases e escrevem-se:

Isto não é vida, mas a vida também é isto!

M.V.M
(1922-2009)




Guardarei na memória a sabedoria, no olhar o sorriso, no ouvido o conselho e no coração a certeza do respeito. Foi um prazer ter regado homenagem neste pomar!

THE END

Bilhetado por Brunorix às 19:29

11
Jan 09
Somos seres contadores. Assim que nascemos começamos a contar. Contamos o tempo, contamos o dinheiro (uns contam mais que outros), contamos os sucessos e os insucessos, contamos os amores e os desamores, contamos os dias e as noites, contamos o estudo e os amigos, contamos as experiências e as histórias, contamos fotos e recordações, contamos trabalho e férias, contamos a saúde e a doença, contamos o que falta para, contamos o que já passou de, contamos saudade, contamos sentimento e contamos, sobretudo, aos outros sobre o que já contámos.

Eu hoje já contei 366 dias, 267 Posts, 318 comentários, 5045 visitas, 1 programa de rádio, 1 clube de leitura, 5 doenças (com a de hoje), 40 etiquetas, 1 curso e meio de Escrita Criativa, 302 imagens e 1 orgulho por isto tudo.

O que eu não consigo contar são as horas de prazer que aqui estão, as palavras todas que aqui deixei, os contactos todos que por aqui fiz, a satisfação imensa pela descoberta deste mundo e a grande realização de criação de um projecto de partilha controlada.

O Bilhete de Ida é uma realidade em crescimento e faz parte integrante do meu blog de vida. Faz hoje um ano que tudo começou e este atingir de proporções que eu nunca imaginei, deixa-me fascinado por ter descoberto o prazer na escrita e pela escrita. Não estão em causa padrões de qualidade, mas sim de satisfação e eu hoje conto-me satisfeito!



10
Jan 09
Por mares nunca antes cheirados

Felisberto, primo do Amaral, tinha tudo para dar certo, o problema é que cheirava mal. Bonito como nenhum, bem-falante e aprumado. Mesmo na farda de comandante, nunca odorava a lavado. Sabia triste a sina de seu cheiro e esfregava o desespero sabido. Nunca era de filas primeiro, pois se vento vinha, o detrás estava caído.

Se a comandar era o mais esperto, sabiam seus homens de antemão, que ao pé do Comandante Felisberto só se chegava o Sargento Carlão. Este por ser duro de nariz e mal feito de olfacto, era o único no seu cariz que chegava perto, de facto.

Lágrimas de Comandante corriam, no ombro do primo Amaral, que a muito custo lhe dizia para não pensar no cheiro, e tal. Forjavam uma solução galante para este mal de odor marinheiro, pois se a questão não era valor para que seria então o dinheiro?! Vai de comprar cremes e sabões, loções e coisas médicas. O combate ao mal odorífero seria travado em batalhas épicas.

Mergulhado em banheira de perfumes, assim ficou o infeliz odorado. Dois dias inteiros mergulhou até estar bem fresco e lavado. Dormiu e tudo mais ali, naquela sopa de belas fragâncias. Deixou ir o mundo, que antes lhe estava parado, enquanto perfumava o mais recôndito das suas ânsias. Nascera o marinheiro perfumado.

O seu andar espalhava agora flores de Primavera, enquanto o seu falar exalava brisas e tons de aloé vera. Até o mar dos seus olhos cheirava a poesia conquistada, num perfume de outros molhos e ramos e tudo o mais que bem cheirava.

Nova página de conquista em cheiro de história de artista, pois era vê-lo a abrir sorrisos e a rodear-se de todos no navio. Já se fazia ao mar de peito aberto e do antigo ninguém mais viu, pois nascera para todos o recém cheirado Almirante Feliz Berto!



08
Jan 09
O pior nem é a febre que me queima.
O pior nem é a tosse que me arranha.
O pior nem é o muco nos canais.
O pior nem é cabeça que me explode.
O pior nem é a dor de abrir os olhos.
O pior nem é a sensação de ter sido atropelado por um camião.

O pior... é querer ler e escrever e não conseguir por causa de tudo o que não é pior.


Bilhetado por Brunorix às 23:11
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07
Jan 09
CONDICIONANTES:

Regras: Através da sensação de uma experiência, descrever outro acontecimento.
Experiência: Durante um mergulho a perna fica presa numa rede de pesca. Falta de ar.
Acontecimento: Estar preso (num estabelecimento prisional).


O PROPRIAMENTE DITO:

O ar ia acabar. Ainda faltavam vinte anos de pena e o ar não ia chegar. Queria respirar e não sabia como, pois sentia o aperto do tempo nos meus pulmões. O ar daquela cela tinha que durar mais vinte anos e, por isso, tentava respirar pouco de cada vez. Os 10 minutos de ar livre por dia, não me chegavam para encher os tanques da alma. Estava seco.

No entanto, estava molhado na clausura como se de um aquário se tratasse. Duas vezes por dia deitavam comida na minha água. Eu mal conseguia alcança-la, pois sentia as pernas presas nas redes da lei. Essa mesma lei injusta que me mantinha ali fechado e com pouco ar. Agora sei porque os peixes de aquário abrem e fecham tanto a boca – não conseguem respirar.

Vinte longos e asmáticos anos e eu com as pernas presas. De vez em quando o meu advogado olhava-me do lado de lá das grades e só faltava bater no vidro para ver se eu me mexia.

Lá vem a comida… não consigo… tenho as pernas presas e pouco ar. Enrodilhado nesta cama, neste cárcere sinto a chama molhada. A minha boca abre e fecha e eu sei que há mundo lá fora.

Vinte anos e nem fui eu que a matei!


Bilhetado por Brunorix às 16:38

06
Jan 09
A Revolta do Avental

Leopoldina, não do Continente, era filha de gente fina e mãe de boa gente. Vagueava pelas ruas da vida, com uma alma mais curta que comprida. Dona de uma casa de alguém, varria os despojos do dia sem obrigados e só com desdém. Três filhos de geração contente, eram a alegria dos seus olhos e a razão do caminho em frente.

Nascida de berço dourado, casara com a tristeza da vida e estava o destino estragado. Largara direito de profissão, para entortar pela lide doméstica. Um, dois, três e já não teve mão, filhos e atilhos apagaram a luz da última réstia. Fazia dos dias acinzentar e guardara pincéis de esperança, pintara uma cruz no olhar e fechara o estore do amanhã criança.


Nalgum dia de visão certeira, sentira na alma um sopro dos deuses que lhe abriu a porta da escandaleira. Agarrou malas de decisão e partiu convicta sem credo na mão. Deixou para trás todo aquele que andava, na alçada de um pasmado patriarca. Levou apenas o que ainda mamava para não lhe deixar uma tão grande marca.

Voltou muitos anos depois, dona de uma vida de aventura. O que mamava já só via mamas, ainda era pendura mas já guiava bacanas. Trazia outra luz no olhar e agarrara o cinzento de frente. Enquanto os ficados continuavam a ficar, ela trazia dança em corpo mais quente.

Fizera mundos e trouxera fundos em alargadas prosas financeiras. Plantara cores e enterrara dores, deixando florir abetos e outras rameiras.

Trouxe ventos de mudança, que foram acatados na ordem do dia. A que foi já não volta nem lança, a que está é porque já foi e agora nem ia. Assim se fez nova ordem, em casa de mulher de ideias que comeu onde os outros mordem, lambeu feridas e coseu meias. Percebidas contendas as de Leopoldina, moralizam nesta história de sucesso. Pois matriarca que nasce fina, jamais será concerto de pouco ingresso.

Vera incessu patuit dea*




* Manifestou-se verdadeira deusa pelo andar.


Alguns casamentos acabam bem, outros duram toda a vida.

Woody Allen


(Allan Stewart Königsberg - a.k.a. Woody Allen)


Bilhetado por Brunorix às 17:17
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Fui ao jardim da Celeste,
giroflé, giroflá,
bruto!
Fui ao jardim da Celeste,
giroflé, flé, flá,
gentil...


Bilhetado por Brunorix às 10:32

05
Jan 09
História de um outro Inácio

Inácio, também por rima Pancrácio, dava ares de galináceo nas suas feições de esperança. Dono de altiva ingenuidade era na verdade, um adulto em recheio de criança. Nascera fino de grossura, mas fazia da sua postura, a crença da sua faiança, pese embora a pouca bonança. Ah! Ainda fazia da envergadura, a crise de uma verga dura numa apatia sem ponta, onde o que interessa é a altura e não o tamanho da conta.

Vivia então assim, na ilusão do rico pobre, que pensa sempre chegar ao fim, mas nem todos os meses sabe se cobre. Escrevia coluna social, que dava para os gostos e gastos. Não escrevia nem bem nem mal, mas fazia da opinião, afinal, a leitura de seguidores vastos.

Frequentava altas patentes em festas e ocasiões destas, mas cerrava sempre os dentes pelo esforço dos gastos latentes, florido de apertos e economias funestas. Mas eram ossos do ofício e tinha de picar ponto em presença, cobria de esforço o sacrifício e lá golpeava os ilustres com estocadas da sua crença.




Certo dia, agora exposto, estava o autor na amargura de não ter sumo na fruta nem matéria-prima desde Agosto. No jornal a coluna parada, fazia da escrita de Inácio, sempre com muito opiáceo, a sequela da história inventada. Precisava da luz a visão e na falta de abanão social, fez-se afoito à aventura da estrada e ao destino deitou mão. Deu-se mal.

Meteu foice em seara importante e galgou saias de esposa fina, conseguiu história em semana gritante, mas acabou depois diletante de uma tal de Madame Lina. Ficou da lembrança o mais giro e acabou mal tinha começado, pois marido resolveu questão a tiro e se esta página mais não viro é porque se finou o autor trespassado.

Termina assim coluna social, de um Inácio à procura de seiva. Incompetente no coiso e tal, escrevia nem bem nem mal pois nascera em berço de eiva. Moral da história pedante: não se procura destino forçado, mas espera-se acontecimento traçado em desígnios de acaso ofertante.


04
Jan 09
As Trilogias afundadas, ainda comentáveis de opinião escassa, trazem à tona da próxima escolha a vontade soberana dos leitores, dos votantes e dos votantes-leitores. Festividades passadas fazem da leitura saudável a necessidade próxima das calorias indesejadas. Olhos comandam, bocas descansam.

“Um livro sobre coragem e humanidade. Uma prosa elegante, recheada de humor e honestidade, Lopez conta-nos uma história de amizade e esperança.” – Publishers Weekly

“Lopez é um fascinante contador de histórias que nos dá um sentido testemunho sobre uma amizade improvável, música, esquizofrenia e dignidade. O resultado é uma surpreendente leitura a que não conseguimos parar de ler.” – The Washington Post




O Solista de Steve Lopez vai acompanhar as próximas duas semanas do Clube, numa partitura solitária para várias partilhas. Segunda-feira, 19 de Janeiro, será lançada a pauta de partida. À chegada tocam-se as notas de cada um em mais um concerto literário.

Bons solos!

Bilhetado por Brunorix às 14:00

Ano de escritas decisões
Fará do sentido esperança
Crescerá do amanhã criança
Será descarga de outros iões
Em palavras de mais bonança

E quando a manhã acordar, estarei a domir


Ano de ventos literários
Aponta no caminho certo
Faz do longe o mais perto
Mostra dos sonhos operários
O trabalho de fecho aberto

E quando a tarde se levantar, estarei a dormir


Ano de pensadas palavras
Ilumina falsas questões
Abraça causadas visões
Poetiza memórias livradas
Em sonetos e tais canções

E quando a noite se deitar, estarei a dormir

... para poder acordar!


Bilhetado por Brunorix às 13:56

Janeiro 2009
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