Escritas do fundo do mar

20
Jun 08
Se a distância matasse, morria
Se a saudade doesse, doía
Se a vontade alcançasse, alcançava
Se a boa nova chegasse, chegava

Mas como a distância não mata, não morro
Mas como a saudade afasta, não corro
E como a vontade alcança, alcanço
E como esse dia vai avançar, avanço

Já baralho do cansaço a razão
Que tira do juízo a lucidez
Que apaga tudo de uma vez
Reconheço que é estupidez
E que o tempo acelera da ilusão
Aquele regresso que parece não






P.S. - Saudador - não é o que saúda, é o que tem uma saudade que começa a doer
Bilhetado por Brunorix às 20:47

Sou o antónimo do cavador. Cubro de salvação, a porcaria deixada. Sou um tapa buracos. Dos que eu abro, dos que os outro abrem, dos que nunca se fecham. Trabalho na sombra do silêncio e apareço na altura precisa em que o buraco é tal, que tem que ser tapado!

Pensando bem, sou bombeiro. Apago fogos de má vontade a toda a hora. Circunscrevo os meus incêndios, os dos outros e os que nunca se apagam. Trabalho no calor do fogo e apareço com a água necessária para o apagar. Refresco da convicção, o cheiro a brasa molhada.

Na verdade, sou canalizador. Vedo fugas de incompetência, ao longo do meu pingar. Fecho as minhas torneiras, as dos outros e as que nem têm rosca. Trabalho no canalizar molhado, do teflon que impede a fuga. Aperto porcas de raiva, no torneirar* da incompreensão.

Ou então sou um palhaço. Rio da superioridade de um truão, imposta no meio de tanta piada. Dou gargalhadas das minhas palhaçadas, das palhaçadas dos outros e dos palhaços inveterados. Trabalho no gargalhar da estupidez próxima, que alegra o colorir dos dias inacreditáveis. Que palhaçada!

Faço tanta coisa, que nem sei mas é o que é que ando aqui a fazer. Faço tudo o que ninguém faz e ninguém quer, não se sabendo que assim o é. Aparece feito e já está, não interessa como nem porquê. Procura-se o responsável, apenas se correr mal. É o problema de trabalhar nas zonas cinzentas, na dúvida sobra sempre para os mesmos!

Ainda um dia há-de ser valorizado…




* ( eu torneiro, tu torneiras, ele torneira…)
Bilhetado por Brunorix às 20:16

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