Escritas do fundo do mar

02
Dez 08
TEXTO D (perspectiva à escolha)

"4ª Pessoa” – O Saco


Ser saco é ser mais alto. É ser maior do que um balde, plastificar como quem reja, é ser plástico e dar como quem seja, rei do reino da transformação sem pudor!

Florbela Esplástica



No Planeta Plasticúrio, um saco está no topo da cadeia plástica de transformação. Tudo o que em nós entra de uma maneira, avança ou recua na sua própria linha temporal. Embora me sentisse bem no meu planeta, estava cansado de transformar plástico e decidi viajar. Apanhei boleia de uma sonda terrestre e mudei de ares!

Gosto das novas transformações que faço, que aqui se traduzem em recuar ou avançar idades de pessoas (os habitantes deste planeta) e/ou mudanças de sexo (o que no meu planeta seria mudar de saco para saca e vice-versa). Houve um grupo que me apanhou (numa zona chamada Felgueiras) e que descobriu o que podia fazer comigo. Usaram e abusaram de tal maneira, que decidi fugir. Por isso, estou agora mais para sul num parque de uma outra cidade.

Já estava habituado a viver neste parque, quando senti que tinha sido descoberto pelo grupo de Felgueiras. Numa noite plástica destas, deixava-me deslizar pelo parque, transportado pelo vento, quando vejo um membro bebé do grupo a gatinhar desalmadamente em direcção a mim.

Num banco, com olhos, mais atrás, estava sentado um humano de consideráveis dimensões que olhava atónito e ofegante para o bebé. Pareceu-me que esboçava um esgar de tentativa de movimentação, mas não passou disso mesmo, pois não se mexeu nem um milímetro.

Enquanto eu aventava fugidiamente, senti que um arbusto (também com olhos!) me agarrava por trás (cobarde!) o que permitiu que o membro bebé conseguisse entrar em mim. Experimentado que estava no meu uso, rapidamente fez o que devia para se transformar. No entanto, esqueceu-se que eu estava agarrado pelo arbusto e enquanto eu esticava, esticava na transformação, passou tempo demais e o membro saiu já velho.

Mas foi aqui que eu fiquei plasticamente atónito. Quando o velho saiu de mim, um bando de humanas histéricas e nuas, saltaram-lhe em cima e imobilizaram-no no chão prendendo os seus braços e pernas com algemas. Nisto, o arbusto levantou-se e o banco também, embora não parasse de gemer, numa confusão de humanos e sirenes e gritos histéricos e aproveito que ninguém vê e deixo-me ir com o vento!

Fui!




Bilhetado por Brunorix às 12:46

26
Nov 08
TEXTO C (Relatório Policial)

Operação Saco Azul

Às 22h da madrugada de ontem, foi levada a cabo uma operação conjunta entre as forças da Polícia Juju (PJ), Polícias Santos Polícias (PSP) e Guardiãs Nuas dos Recantos – Brigada do Transformismo (GNR-BT).

A Operação Saco Azul foi o culminar de vários meses de investigação da força de intervenção especial das militares da GNR – BT com vista à cassação das actividades de transformismo ilícito do grupo de marginais conhecidos por Gang dos Bebés-Velhos. Esta brigada composta só por agentes femininas (espero eu!), incidiu a sua investigação nos mais suspeitos parques do país, após os misteriosos aparecimentos de sacos azuis transformistas. Esta investigação que começou em Felgueiras, culminou, como já foi referido, na acção interventiva de ontem, que ocorreu desta feita no Parque do Calhau em Monsanto.

Desenrolar da Operação:

21h 30m: Os primeiros agentes a chegarem ao local, foram o Agente Saraiva da PJ e o Agente Simões da PSP. Devidamente dissimuladas as suas presenças no local da operação esperou-se a chegada do prevaricador suspeito que se sabia, por escutas em infantários, ocorrer por volta das 22h.

21h 55m: A operação sofreu um revés inicial e esteve quase a ser abortada, quando o Agente Saraiva da PJ, disfarçado de banco de jardim, sentiu na pele, isso é no lombo, o pesar ofegante dos 150Kg do corredor nocturno, de ora em diante designado por Testemunha nº1. Perante a imobilização do referido Agente, debaixo de tamanha carga, pareciam goradas as possibilidades de uma rápida intervenção. No entanto, e graças mais uma vez à valentia destes agentes no terreno, foi possível levar a cabo os intentos da operação como se explica no parágrafo seguinte.

22h: O Agente Simões da PSP, disfarçado de arbusto, manteve a sua posição no terreno e aquando da chegada do prevaricador suspeito, que se sabia chegar em formato bebé, tentou atrair a posição deste último para junto de si. Embora soubesse da imobilização do seu colega agente, conseguiu que o saco (por acaso azul) ficasse preso em si, isto é no arbusto, atraindo assim o suspeito ao seu interior.

22h 30m: Como já era sabido por estas forças da ordem, o transformismo ilegal viria a ocorrer por volta das 22h35m quando o prevaricador suspeito, antes bebé, saía de dentro de um balão azul, antes saco, agora como velho (o suspeito, não o saco).

22h 35m 33s: É nesta fase da operação que se dá a rápida intervenção das agentes da GNR-BT (Agente Liliana, Agente Rute, Agente Ofélia, Agente Rosa Choque, Agente Matos e Agente Inha), devidamente fardadas, isto é nuas, que imobilizaram o velho, antes bebé, após o seu transformismo ilegal.

Notas finais: É de louvar mais uma vez, o bom desempenho de todas as forças policiais envolvidas, que só assim possibilitaram que mais um membro do referido gang fosse capturado após conclusiva prevaricação. Foi possível, ainda, recolher o depoimento da Testemunha nº1, que finalmente saíra de cima do Agente Saraiva, que teve que ser encaminhado ao hospital com lesões profundas nas costas, mais precisamente entre as vértebras L4 e L5. A este Agente se recomenda a atribuição da medalha (curiosamente) azul da Grande Ordem do Disfarce (GOD).

Ao Agente Simões se recomenda a medalha de Mérito Florestal por aguentar “arbustamente” o seu disfarce e à brigada da GNR-BT um louvor colectivo por mais um magnífico desempenho. Este louvor será procedido de um jantar de comemoração* em casa do Comandante da referida brigada, para atribuição de brindes e algemas de ouro.**


Lisboa, 25 de Novembro de 2008.

Comandante Gomes,
3ª Brigada da GNR-BT
(orgulhosamente único homem!)


* Excepção feita à Agente Matos que fica de serviço à esquadra, por não ter feito a depilação devidamente, como consta do código de conduta das militares da GNR-BT, artigo 2º Aprumos e Fardamentos, alínea 4c: Ostentações e Outras Pilosidades.

** É preciso esclarecer o mistério que envolve o transporte de equipamento policial por parte destas agentes, pois se nem um cinto usam…? No entanto, é de louvar o facto de surgir tudo no decorrer das operações quando é preciso, algemas, cassetete e arma pessoal.



Bilhetado por Brunorix às 12:16

TEXTO B (1ª pessoa)

Tenho que lá chegar… tenho que lá chegar! Nunca mais acerto com isto. Tanta mudança de corpo e nenhum me serve. Mas porque é que eu não ouvi as instruções com atenção?!

Se bem me lembro, diziam que tinha que ser de noite, num parque da cidade e para ter atenção à cor do saco que tem que ser de plástico (está visto que não têm consciência ambiental!). Já sei que não pode ser amarelo porque fiquei dentro de um corpo de mulher, verde também não porque saí bebé, vamos ver se naquele azul acerto. Afinal, tenho 20 anos e estou a gatinhar vestido com um babygrow, num parque nojento, atrás de um saco de plástico azul. Se ao menos o vento parasse.

Estou quase, maldito saco! Ainda bem que a esta hora não se vê ninguém… raios! Aquele gordo sentado com ar de morto vivo está a olhar para mim com cara de parvo. Queres ver que ainda se lembra de me pegar ao colo? O que vale é que parece ter um andar mais lento que o meu gatinhar.

Boa! O saco ficou preso num arbusto. Já tenho os joelhos em sangue, é agora!

Deixa cá ver se é desta: já estou cá dentro, dou 3 voltas enrolado no saco, declamo um poema, ponho os dedos no nariz, faço força e espero… espero… já me sinto a crescer… e a ficar mais velho… está a funcionar… finalmente, estou a crescer! Tenho cabelo, e barba!

(demasiado crescimento depois)

Espera, espera lá… estou a crescer de mais, a envelhecer demais… não!!! Saco errado outra vez! Será que tem de ser um do Continente? Os do Pingo-Doce são pagos… serão melhores?!




Bilhetado por Brunorix às 11:36

Mais um exercício de escrita criativa, desta vez em 10 perspectivas diferentes. Como condicionantes obrigatórias, o facto de ter que ser num parque, ter que existir um saco e ter que acontecer algo marcante. O resto é meia bola e força! Duração,15 minutos (+/-) cada texto. Deste escriba saiu assim:




TEXTO A (3ª pessoa)

Decidi parar porque já não conseguia mais. Sentia os pés na cabeça e os joelhos batiam um no outro a cada passada. Já era muita corrida para a minha barriga. Era a minha primeira noite de jogging no parque e eu estava sentado ofegante, 10 minutos depois de ter começado.

Enquanto lamentava a minha má forma, olhei para o lado e vi um bebé a gatinhar. Que horror, pensei, um bebé sozinho num parque às dez da noite?! Alheio ao meu pânico de adulto, o bebé continuava a gatinhar em direcção a um saco de plástico. Parecia decidido na sua tarefa de lá chegar.

Ordenei ao meu corpo que se mexesse, mas ele não fez nada, estava entorpecido da corrida e não houve reacção. Nisto, o bebé atingiu o saco e enfiou-se lá dentro. À medida que eu finalmente me conseguia levantar e me aproximava do saco, reparei que este estava a esticar, a esticar. Já não parecia um saco, parecia um balão.

Quando eu estava já ao alcance de um sopro, o balão rebentou e saiu de lá um velho!





Bilhetado por Brunorix às 11:23

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