Escritas do fundo do mar

04
Nov 09
António Ébano e Maria Mármore estavam de costas voltadas para o entendimento. Faziam do equívoco o desafinar da melodia e por muito que se apertassem as cordas, nada soava a tranquilidade. O destino músico bem se esforçava por seguir a pauta da vida mas a razão não resistia ao compasso da discórdia.

As teclas brancas olhavam de soslaio para as teclas pretas. O clima de suspeição deixava cair uma névoa de tristeza e rancor que não permitia ver sorrisos por trás da cortina. Eles até existiam. No entanto, estavam pintados de orgulho. Os acordares eram avessos e os adormeceres angustiados. Ambos choravam por dentro mas no silêncio da dúvida.

Contra explanação, um milagre aproximou-se do piano exactamente um ano depois do seu último concerto. Mandou as pautas da discórdia para o chão e substituiu-as pelo andamento futuro. Sentou-se, aqueceu bem as mãos e começou a tocar.




Uma doce melodia de entendimento encheu o ar do momento enquanto António e Maria subiam e desciam comandados por uma vontade que não percebiam. Todas as teclas se uniam na razão de uma música de sentimento, pautando cada nota pelo aprimorar do mais puro dos sons. Os suaves compassos do fundamento preenchiam os espaços do silêncio com colcheias de tudo o que sempre foi.

Finda a música, o milagre (do Amor) levantou-se, recolheu as suas folhas e partiu para outros pianos. António e Maria abraçaram-se de emoção e perdoaram os anteriores silêncios cantando em uníssono. Na escada do futuro selaram a conquista com um beijo. E que beijo!


15
Jun 09
Quando os primeiros apareceram, ainda a sua pele estava fria da noite anterior, e começaram logo a desarrumar tudo ao seu redor deixando pegadas parvas na tranquilidade de quem acordava, percebeu que o seu descanso terminara e que depois destes se seguiriam todos os outros. Os olhos descolavam a custo e contra vontade. O sol já espreitava, na sua costumeira e irritante alegria.



O dia prometia a habitual intensidade de trabalho ao calor, a suportar o peso de milhares de pessoas: umas que a pisavam, outras que se deitavam sobre ela, outras que a esburacavam, outras que lhe espetavam chapéus nas costas, outras que a sujavam, outras que jogavam, algumas até roncavam, outras que a construíam, outras que ali estavam e outros ainda que passavam.

Assim foi e assim se cumpriu.

Mais tarde, penosamente mais tarde e com o sol quase escondido, conseguiu dar os primeiros bocejos de algum descanso. Os últimos resistentes arrumavam as toneladas de tralha indispensável para a praia e deixavam impressas as últimas pegadas do dia. Só o mar se sentia e o reino do silêncio começava timidamente a instalar-se.

A noite, que logo se seguiu, era serrada pelo lenhador do tempo e a areia finalmente dormia. Sonhava com um dia chuvoso e sem ninguém na praia. Se ao menos chovesse no dia seguinte…

Dia seguinte: chove desalmadamente. *



* - Qualquer coisa (em litros por metro quadrado) que fica entre a crueldade de não ter alma e a bátega imensa que se abateu hoje. Ao menos há alguém satisfeito!
Bilhetado por Brunorix às 17:47

05
Mar 09

Numa floresta de cimento urbano, mas verde, vivia um Tigre que não era zarolho e um Zarolho que não era tigre. Eram amigos desde a infância e suavizavam o passar dos anos em animadas conversas de índole Marxista/Leninista numa perspectiva de implante político de silicone opressivo e obsessivo.

Juntos se consideravam e olhavam o mundo (um deles assim de esguelha) na ilusão jovem de quem consegue tudo e não tem muito com que se preocupar. Até que um dia, já depois de ter saído de casa dos pais, o Tigre foi despedido da fábrica de automóveis onde trabalhava ia já para uma mão cheia de anos, mas vazia de indemnização.



Caído nas malhas do subsídio de desemprego começou a perder o lustre nas riscas e a pose felina, enquanto se arrastava de formação em formação pelos centros de emprego à espera de uma proposta milagrosa. Enquanto isso, o Zarolho ia subindo degraus na sua gorda carreira de sócio/gerente de uma fábrica de óculos escuros, que aliás usava sempre - dia e noite.

Errado dia, cruzam-se no corredor da casa que partilhavam, e momentos antes de o Zarolho falhar a porta da casa de banho e dar uma marrada na ombreira, o Tigre cai de fome aos seus pés. Surpreendido, o Zarolho fecha um dos olhos e repara pela primeira vez como ele estava pálido e magro. Umas malgas de água com açúcar depois, o Zarolho deixa cair o queixo (que o Tigre comeu logo tal era a fome) ao inteirar-se de que o seu amigo de vida, e de casa, estava no desemprego, sem dinheiro e com fome, quase há 1 ano.

Sentido vergonha na já rubicunda face, acalmou o Tigre dizendo-lhe que não se preocupasse porque tinha muito dinheiro no BPN e ia ajudá-lo. Aliás, estava com ideia de investir num negócio de um Freeport e ia nomeá-lo gestor do projecto.

Alguns dinheiros depois o Tigre perdeu a palidez e a fome e ganhou prosperidade financeira, ao mesmo tempo que abraçou a carreira política. Fundou o PND (Partido do Novo Dadaísmo), uma nova força de extrema esquerda e direita com assento no meio. Perdeu as riscas de vez e ganhou pêlo na venta, sendo por isso, agora, um Leão.

Entretanto naquela floresta, rebentam alguns escândalos que afundaram o Zarolho (qualquer coisa a ver com o banco parece), mas mantiveram o Tigre, isto é Leão, bem à superfície da conjuntura político-social. O Zarolho tentou fugir para o Brasil, mas esqueceu-se de fechar um olho e comprou um bilhete para Braga. Acabou por se envolver numa empresa de parques, mas deu rolho também.





Moral da história: Em terra de zarolhos, quem foge às riscas é o rei!

Bilhetado por Brunorix às 12:26

20
Jan 09

Saltou pela janela e estranhou o chão tão mole. Cada passada deixava uma marca de passado impresso. Não sabia o que sabia até então, mas estranhava o ambiente de nevoeiro. Sentia que acordava de um sono tão profundo que nem se lembrava de o ter dormido. Não estava frio nem calor. Não estava nada.

A primeira pessoa que viu nem lhe dirigiu o olhar. Estranhou a indiferença da passagem, mas também é verdade que hoje em dia as pessoas nem ligam umas às outras. Enquanto pensava no caminho das relações humanas avistou mais uma pessoa. Desta vez dirigiu-se com mais convicção e arriscou um sonoro cumprimento:

- Bom dia!

Nem um vislumbre de movimento de olhar na sua direcção. Como pedras atiradas, as suas palavras afundaram rapidamente no lago da indiferença. Entrou numa rua cinzenta de comprimento que só tinha montras dos dois lados. Não se via para dentro delas, mas reflectiam-se umas às outras criando uma sensação de infinito. Quando passou na primeira não conseguiu ver o seu reflexo. Estendeu a mão para o vidro, até tocar, mas não tinha imagem de volta. No entanto, o vidro reproduzia a rua toda e o lado oposto. Estaria invisível? Não podia. Conseguia ver as suas mãos, os seus pés. Tocava-se e estava ali.

Continuou em frente na procura e percorreu todas aquelas montras que insistiam em ignorá-lo não lhe devolvendo o reflexo. A rua desembocava num largo de sensações desconhecidas que estava cheio de caras familiares que se deslocavam avidamente de um lado para o outro no topo de corpos desconcertados. Tentou falar com todos ao mesmo tempo, mas ninguém o ouvia. Atravessavam o seu corpo como se ele não estivesse lá, como se não existisse, como se estivesse preso entre mundos.

Aninhou-se num vão de escada escuro e bafiento. Um cobertor velho serviu para tapar todas as perguntas a que não conseguia responder. Adormeceu no cansaço e na dúvida eterna.




- E aquele ali?

- Aquele… deixa cá ver… aquele… aquele não devia estar aqui! Quem é que o chamou antes de tempo?!

- Isso não sei, chefe! Eu limitei-me a entregar a ficha dele na central.

- Mas como é que essa ficha veio cá parar 40 anos antes da data prevista? Alguém me explica?! Cambada de incompetentes! E agora?!

- Não sei chefe… talvez devolver o tempo dele a alguém da família…

- Seu estúpido! Seu incompetente! O desgraçado vai cumprir o tempo que falta naquele miserável vão de escada! E para que quer a família o tempo dele?!

- Sinceramente não sei chefe… nunca me tinha acontecido um engano destes… podemos pedir desculpa?

- Cale-se seu incompetente! Não diga mais nada…


Bilhetado por Brunorix às 17:07

14
Jan 09
Estava encharcado até ao avesso da alma. Chovia copiosamente em todas as direcções do sentimento e começava a ter frio. O chapéu de chuva aparente, estava roto na determinação e deixava passar tudo. O sol tinha desligado ontem e os ossos do ânimo estavam agora realmente gelados. Estavam gelados de medo, gelados de frio, gelados de companhia.

A solidão dos acompanhados esconde a poesia interior em frases de banalidade diária: bom dia, até logo, boa noite, até amanhã… – O relógio da estação mostrava em monotonia de movimento que ainda faltavam 20 minutos para a partida do seu funeral. Tinha tempo. Sempre tivera.

Tentou secar algumas considerações para ver se aquecia a partida. Despiu o casaco molhado de mágoa e sentou-se na determinação da espera reflectindo entre pensamentos sobre a questão que o atormentava: será que alguém iria ter saudades suas?

O mesmo relógio, da mesma estação, na mesma monotonia, mas alguns movimentos mais à frente, mostrava que os 20 minutos tinham passado. Já não tinha tempo. Nunca tivera. O seu funeral estava a partir. Correu na determinação do alcance e com uma agilidade rara em si, saltou de uma só convicção deixando a plataforma boquiaberta enquanto entrava na primeira carruagem.




Sacudiu o casaco já seco de pensar e olhou em volta para algumas pessoas que o choravam. Familiares que nem sabia que tinha, dividiam lenços do mesmo papel enquanto fungavam entre dentes a perda do seu ente querido. Algumas recordações sobre o seu crescimento trouxeram sorrisos luminosos no meio de tanta lágrima cinzenta. Ali parecia estar a ser recordado com saudade.

Passou para a carruagem seguinte, onde os seus amigos de toda a vida confraternizavam entre copos e cantavam sobre as histórias da saudade. Acabou por rir também ao rever tantos episódios em que era protagonista e já nem se lembrava. Ali era decididamente recordado com alegria.

Na carruagem seguinte, além de confirmar que ninguém parecia dar por ele desde que saltara da plataforma, não reconheceu ninguém. Algumas frases depois, fez-se luz no seu espírito e percebeu o conteúdo: eram os seus leitores. Todos aqueles que o leram e gostaram e que não o conhecendo pessoalmente agradeciam todas as viagens que as suas palavras lhes proporcionara, todos os sonhos das suas frases, toda a imaginação da sua pontuação, toda a poesia das suas prosas. Ali era recordado com admiração.

Saltou para a última carruagem e não viu ninguém. Cheirava a destino e uma luz ténue de resignação apontava para o meio onde estava o seu caixão aberto e vazio. O interior acolhedor estava à sua espera ansiosamente e pedia em tom mavioso que se deitasse. Estava tudo preparado para a chegada à estação terminal. Esboçou movimentos vários no sentido da sua horizontalidade final, mas não conseguia concretizar. Num repentino assopro de revolta puxou a alavanca de emergência e tudo parou.

Saltou para a paisagem fresca de esperança e correu ao longo das carruagens no sentido da partida. Todos se amontoavam nas janelas para o ver passar. Uns pediam autógrafos, outros pediam canções, outros pediam atenção, mas todos sorriam e acenavam de emoção. Ainda não estava preparado para aquela viagem.

Voltou para o lugar de sempre, sentou-se e escreveu até à manhã do conto seguinte. O sol estava de novo ligado.



Bilhetado por Brunorix às 16:44

30
Dez 08
Sentiu a envolvência do ambiente molhado como se estivesse a ser agarrado a toda a volta. Estava a sorrir na água e a nadar na descontracção de quem se sentia em casa. No seu pescoço surgiram duas aberturas e com a simplicidade de quem nunca dali saiu, respirou. Respirou no azul profundo do seu ser.



Nadou por todos os cantos como uma criança e explorou cada molécula de água como se fosse a última. No fundo daquele mar confinado havia uma porta de luz, para onde nadou de curiosidade. Uma ligeira corrente puxava-o na direcção de um longo corredor. Deixou-se levar pela alegria da deslocação e desembocou numa enorme massa de água.

Agora já havia superfície e dirigiu-se-lhe. Espreitou a medo fora de água e viu a cidade numa perspectiva de Tejo passante. Lembrou-se do seu quarto cinzento, mas ficou animado pelo colorido do seu novo meio. Submergiu de novo e ainda conseguia respirar. Superfície, fundo, superfície, fundo. Repetiu o trajecto vezes sem conta até ter a certeza que respirava nos dois ambientes.

Saiu da água em direcção às colinas de sempre. Estava seco. Caminhou apressadamente, já com saudades da água, no sentido do seu destino e só parou na mesa do seu quarto. Os pratos ainda lá estavam. Afastou-os com decisão e sentou-se a escrever. Escreveu sobre todo o seu período cinzento, mas com caneta de cor confiante. De noite voltou ao Tejo para dormir.

Continuou seco de dia a escrever e molhado de noite a dormir (não sem antes nadar de saudade). O ano chegava ao fim e a história que deixava escrita também. Finalmente descobrira a sua vocação: era um peixe escritor!

(fim)

Bilhetado por Brunorix às 13:23

22
Dez 08
Pisou a relva, fofa de esperança, e sentiu os seus pés a afundarem na incerteza. Caminhou a passos de medo e embrenhou-se fundo naquele jardim de esplendor revigorante. Não percebia como era possível aquela imensidão dentro de uma casa, mas isso também não era importante no seu caminhar.

De um lado flores e mais flores com as suas cores preferidas. Já nem se lembrava como gostava de azuis, verdes, laranja… há vários anos que só via cinzento. Nas pétalas das flores, podiam ler-se frases escritas por si em tempos coloridos. Sorriu na leitura nostálgica da criação.

Do outro lado árvores dos seus frutos, alinhadas em pensamentos e graus de doçura. Aproximou-se da árvore mais frondosa e percebeu que em vez de frutos, havia fotos penduradas nos ramos. Fotos suas! Desde bebé até ao último dos seus dias coloridos.

Entre as árvores e os frutos um denso arbusto de nomes desfilava sobre o olhar atento da sua lembrança. Todas as pessoas importantes na sua vida estavam ali nomeadas. Alguns nomes estavam murchos de perceber, mas há medida que os lia floriam numa panóplia de recordações.

Deitou-se na relva e respirou todo aquele ambiente familiar. Aquele jardim era a sua vida em flor e o aroma a saudade acalmava o seu presente. Fechou os olhos na frescura do sonho e adormeceu a sorrir com uma tranquilidade há muito perdida.




Abriu os olhos. As costas doíam-lhe de novo naquele acordar de realidade. Era uma divisão escura e fria. Estava vazia. Levantou-se e dirigiu-se à porta degradada que dava para o corredor estreito por onde entrara. Bateu a porta atrás de si e arrastou-se no caminho da desilusão. No chão estava o papel gasto e sujo onde tinha lido aquela morada. Apanhou-o e reparou que a morada desaparecera dando lugar a uma única frase:

- Porta azul.

Olhou para trás e reparou que a porta que batera verde atrás de si estava agora enigmaticamente azul. Voltou atrás e bateu de novo no espanto. Desta vez, abriu à primeira pancada. Do outro lado do azul fechado, um azul imenso de frescura mostrava o fundo do mar. Mergulhou sem pensar.

(continua)
Bilhetado por Brunorix às 18:13

17
Dez 08
Em cima da pequena mesa de madeira, dois pratos de sopa já comida dormiam ainda sujos. Não percebeu se comera duas vezes ou acompanhado, mas o resultado final era o mesmo: estava sozinho. Voltava a estar frio e a paisagem acinzentara de novo.

Tentou extrair do sonho a força para o passo seguinte, mas a perna da motivação não se mexia e a da vontade estava coxa de esperar. Decidiu ir tomar um vigoroso banho da temperatura possível, naquele cubículo partilhado no corredor, que alguém ironicamente chamava de sala de banho.

Saiu à rua para procurar esperança e quem sabe trabalho. Longe iam os seus tempos de escritor e desde que a sua caneta de imaginação secara, nunca mais tinha conseguido escrever uma única palavra. Desde essa altura que não parava de descer escadas na vida e em dois anos passara do tudo ao nada. Já nem nome tinha.




Caminhava na tentativa de se lembrar quem fora quando um choque de coincidência bateu na sua cara. Um papel gasto e sujo continha apenas uma morada. Sem saber porquê, decidiu experimentar e fez-se à rua procurada.

Quando chegou, subiu ao 3º andar e dirigiu-se à única porta, verde, que ficava no fundo de um corredor de expectativa. Como não havia campainha, bateu com força na porta de madeira e à terceira pancada a porta abriu-se. Do lado de lá do espanto, um magnífico jardim de todas as cores convidava o seu olhar a entrar. A imensidão perdia-se de vista e o seu queixo caía na incompreensão dos sentidos. Até o cheiro era real.


(continua)

16
Dez 08
Percebendo o recado que o destino lhe mandava, levou aquele corpo e o dono que o habitava para o seu quarto. Mesmo frio e cinzento era melhor que aquela rua de Inverno solitário. Ofereceu banho e roupa lavada a um incrédulo ser de novo humano. Conversaram toda a noite, partilhando um pão e um prato de sopa.

Descobriram-se amigos de conversar e pintaram de várias cores os cinzentos de cada um. Juntando as memórias boas individuais, conseguiram fazer um conjunto de doces recordações que comeram em fatias iguais. Sentiam-se cheios da sobremesa e adormeceram no cansaço da partilha. O quarto estava quente pela primeira vez.

Decidiram formar uma empresa de capital vontade e começaram a vender determinação juntos. Escreveram crónicas de descoberta, contos de futuro e romances de certeza. Todos os dias voltavam ao quarto com mais matéria-prima para escrever. Escreveram e venderam, escreveram e venderam… escreveram e venderam.

As paredes do quarto começaram a afastar, o soalho já só rangia de contentamento, o cinzento iluminou-se, o calor entrou e as meias coseram-se. Agora que tinham mais divisões, começaram a escrever separados. O capital aumentou e as vendas também. Formaram uma editora…




Acordou enregelado esticando o fino cobertor que já não se via de tanto esticar. Sentou-se na cama de molas ainda tristes e olhou a meia ainda rota. Voltara sem nunca ter saído.


(continua)

Bilhetado por Brunorix às 19:50

CORES DE UM CINZENTO SÓ

Era um quarto que se devorava em três passos. Cinzento de vontade e bafiento de desanimo. Estava frio e o chão rangia a castanho esquecido. O atraso na renda desse mês estava mais perto que a maneira de a conseguir pagar.

Sentou-se na cama de molas tristes, que lhe arranhavam a dignidade, e pensou na saudade. Sobretudo, na saudade que tinha de não ter saudade, pois essa era sempre a primeira carta que caía no seu castelo de sonho instável.




Olhou para a meia rota de desleixo e chorou. Chorou pela vontade.

Sentiu toda a solidão do mundo no seu quarto e olhou a paisagem da sua janela. Era de dia e estava sol, mas os seus olhos só viam escuridão. As paredes aproximavam-se no adensar do desalento e percebeu que tinha que sair. Algumas roupas gastas mais tarde, cheirava a cidade no seu interior e caminhava na razão do pensamento.

Calcorreou colinas de infância e aproximou o Tejo ao olhar. A cidade corria ao ritmo das castanhas e o frio encolhia vaidades. Observou todos e cada um, e pensou com inveja onde iriam com tanta certeza, com tanta vontade de lá chegar.

No canto mais frio do Paço, um monte de cartão escondia um corpo. Dormia de sujidade, frio e esquecimento. Aproximou-se e tocou no que parecia ser um ombro debaixo de roupa velha. Reagindo ao toque, o corpo virou-se e fixou o seu horror de espanto: era a sua cara que ali estava, debaixo de muito cabelo e barba!

(continua)

* Estado de vazio. Oco.


04
Nov 08
Daniel caminhava pela estrada da vida, quando uma dúvida de rumo o submeteu ao pensamento. Sentou-se numa pedra e, perante a dureza do assento, olhou para trás duvidante. Pensou em voltar ao tiro de partida, mas sabia que uma bala disparada jamais volta à arma.

Ficou dois dias ali sentado, ao sol e à chuva. Levantou-se muitos pensamentos depois, e ainda receoso da direcção, decidiu continuar. Foi colocando um pé em frente do outro, alternadamente, mas sem a convicção da passada certa e partiu na busca do sonho.

Quando chegou ao lado de lá do que lhe parecia certo, espreitou o vale da tranquilidade e pensou que era ali que gostava de construir uma casa. Os alicerces do seu sonho teriam que ser enterrados naquela terra de esperança. Ergueria ali um abrigo megalómano para marcar bem a sua certeza e para que fosse visto de todo o vale.

Sentou-se numa rocha, e perante a dureza do assento, abanou ligeiramente a sua convicção e pensou que uma casinha mais modesta também serviria os seus intentos de procura de paz interior. Pensou, pensou, pensou… e levantou-se. Aquele vale já não lhe parecia assim tão perfeito. Atalhou pelo monte seguinte e virou na segunda certeza à esquerda, desembocando no vale da felicidade. Agora sim! Era aqui que ia ser a sua casa!

Sentou-se num penedo, e perante a dureza do assento, deu duas voltas ao pensamento, levantou-se e seguiu caminho. Andou, andou, andou e ainda andou mais um bocadinho. Depois de tanto andar chegou ao vale que não vale nada. Inóspito como só podia, não lhe urgia de vontade a construção. O único lugar agradável de todo o vale, era um pequeno monte de erva fresca e fofa. Sentou-se, e perante a moleza do assento, nunca mais se levantou. Nem construiu. Nem andou.




Muito anos depois, levantou-se e voltou a andar. Nunca construiu, mas decidiu escrever nos limiares da memória tudo aquilo que viu. Pegou na sua caneta de sonho permanente e escreveu nas asas do vento:

Daniel caminhava pela estrada da vida…

Bilhetado por Brunorix às 13:17

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