Escritas do fundo do mar

11
Fev 09
MAÇÃS SALGADAS #2

Os meus dedos aterrorizados cravaram-se na maçã indiferente, com a força do sumo que já escorria. Vinda do fundo do medo, uma onda de energia fez-me correr como nunca na direcção do muro e do respectivo salto salvador.

O dono do berro, não se deu ao trabalho de correr atrás de mim, mas agarrou na famosa espingarda (sempre pensei que ela não existia) e apontou-a num gesto claramente repetido vezes sem conta, enquanto eu corria com a minha experiência cinematográfica, isto é, em ziguezague.

Ouvi uma primeira saraivada salgada, mas parecia estar tudo bem pois não senti nada. Ainda estava a correr e o muro estava próximo. Só falta o salto… saltei!

Do lado de lá da aterragem, a multidão de olhos curiosos, fazia perguntas sem sequer falar. Ainda bem que as maçãs cheiram, pois aquela massa disforme e esmagada que eu ainda apertava, parecia tudo menos uma maçã. Prova superada!

De volta à sala de aula não se falava de outra coisa, eu tinha finalmente marcado pontos e aquele dia era meu. Estava inchado de orgulho e não cabia no contentamento do meu casaco. Assim que me sentei levantei-me logo, um calor doloroso acabara de atacar uma zona do meu corpo que devia ser ali para os lados do fundo do rabo, ou do cimo da coxa, não sei bem. Pensei que me devia ter arranhado no salto e sentei-me mais devagar.

Os cinquenta minutos de aula seguintes foram dolorosos e, apenas refrescados, pelo meio, por alguns olhares de cumplicidade e admiração. No intervalo arrastei a minha dor à casa de banho e na intimidade do cubículo sanital, baixei as calças para uma inspecção mais minuciosa. O resultado da minha pesquisa tinha revelado, não só um buraco nas calças, mas outro na tal zona do meu corpo. Eu tinha levado um tiro de sal!

Anos passados, muros e maçãs também, e uma pequena marca ainda hoje me lembra o preço da aventura. Podia ter corrido mal, mas não correu e, sobretudo, ninguém soube da marca infligida. Para a história (a minha) fica a memória de uma fase da vida em que todos os dias nos púnhamos à prova e onde o perigo inconsciente espreitava… atrás das árvores do crescimento.

Ainda gosto de saltar muros, mas prefiro maçãs sem sal.



Bilhetado por Brunorix às 16:10

04
Fev 09
MAÇÃS SALGADAS #1

Cheirava a fruta e a medo. A separar, um muro de pedra e areia que se ia desfazendo com o passar dos anos para o lado de lá e dos corajosos em sentido inverso. Sempre foi o grande baptismo daquela escola: conseguir trazer uma maçã para provar a ida. O sabor? Esse podia ser deitado fora.

Quarta-feira de aventuras. Já andava naquela escola há 3 meses e ainda não tinha saltado o muro. Já não conseguia fugir ao ritual de aceitação. Tinha chegado o meu dia.

Regras: saltar o muro que ficava nas traseiras da escola e voltar com uma maçã.

Primeira condicionante: do lado de lá do medo havia uma quinta com muitas árvores.

Segunda condicionante: as de fruta eram as mais longe do muro e as mais perto da casa.

Terceira condicionante: conseguir voltar são e salvo porque, segundo constava, o maluco do velho que lá vivia disparava sobre os miúdos que lá entravam.

Quarta condicionante: disparava mesmo. Embora fossem tiros de sal, faziam uma ferida dolorosa e eram o símbolo da derrota.




O ritual exigia que as regras fossem ditas em voz alta momentos antes da partida. Nesse dia nem as consegui ouvir e deixei que fossem abafadas pelos nervos. Os sons iam para o estômago e na cabeça só ouvia o coração. Já tinha as mãos encostadas à inevitável escalada e ainda hesitava. Os olhares de todos convenceram-me.

Passar para o outro lado era a parte fácil pela execução, mas difícil pelo que se seguia. Quando aterrei no chão que me esperava, estava a suar. As pernas tremiam e o corpo colava-se ao muro. As árvores eram horrivelmente bonitas e assustadoramente convidativas. Caminhei na direcção do cheiro, mas parecia nunca mais lá chegar. A única árvore que tinha maçãs, ficava mesmo junto à janela da casa do velho.

Dois troncos antes do objectivo fruto, parei para respensar (que é uma espécie de respiração do pensamento), acalmei as pulsações e comecei a correr com a determinação mais assustada que tinha. Agarrei a maçã com a pressa da alegria e no regresso vitorioso deixei-a cair.

Voltei atrás para cumprir o destino honroso e no momento em que apanhei o frutado prémio, ouvi um berro que me aqueceu o pânico…


(continua)

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