Escritas do fundo do mar

31
Mar 09
Ciclo de cinema puro e duro. Verdades da vida em forma de murro (moderado) mas que não aconselho nesta sequência, que foi a minha. O ideal será intercalar com algum cor-de-rosa pelo meio… só para desanuviar.

Sem ordem de preferências, mas sim de visionamento. Gostei de todos e acho que devem constar da curriculum cinéfilo de todos os apreciadores. Sem dores. Apenas realidade.


Gran Torino




Revolutionary Road




The Visitor (O Visitante)

Bilhetado por Brunorix às 16:24
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Depois de me ter aficionado em Berlim pela onda azul, esperei ansiosamente que viessem até ao nosso cantinho para mostrar que um espectáculo é muito mais que público, um palco e alguém em cima dele.

Blue Man Group é uma diversão azul com boa música, e muito bons músicos. Para dançar, cantar e participar (seguramente), e sobretudo, a não perder, aqui!





P.S. – Se até o mono que estava atrás de mim teve que se levantar, qualquer ser não amorfo vai adorar!
Bilhetado por Brunorix às 12:54
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26
Mar 09

Enquadramento

Escrever a partir de uma série de movimentos feitos por uma actriz. Não há falas, só gestos e expressões. Em duas partes, a primeira descreve apenas os movimentos factualmente enquanto se observa; a segunda é o exercício propriamente dito. Uso da criatividade (d)escritiva.


Acção

Primeira parte (2 minutos) – Entrar. Cara de espanto. Pegar num objecto. Acariciá-lo. Apalpar as paredes com ar de saudade. Pegar num pano. Emoção nostálgica. Olhar a janela. Abri-la. Sensação familiar. Sentar e pegar num livro. Cheirá-lo. Recostar e sorrir.

Segunda parte (15 minutos) – Abriu a porta para o que já sabia que não sabia que ia encontrar. Esperava algo, mas não sabia o quê. Estaria tudo na mesma?! Entrou…

A primeira coisa a cair foi o queixo, seguiu-se logo a surpresa e a admiração. Só o conforto do alívio se manteve de pé. Deu dois passos no interior da certeza e pegou na primeira recordação que os seus olhos viram. Abraçou-a como a um filho. Largou-a.

Acariciou as paredes e esfregou o contentamento na branca frescura da tranquilidade. Afinal, ainda se lembrava do cheiro da infância.

Pegou num pano que bordara na escola e sorriu na nostalgia da falta de jeito. Nunca se dera com trabalhos manuais. Correu para a janela e abriu-a de emoção. A paisagem que se via era nova mas completamente familiar. Tantos anos longe.



A secretária, apesar do pó do abandono, estava impecavelmente limpa. Tudo no mesmo sítio como se o tempo tivesse sido desligado. Sentou-se na cadeira de outrora e recuou sensações. Rebobinou a vida, e agarrou no último livro que tinha lido naquela secretária. Abriu-o. Cheirou-lhe à história que ainda sabia de cor.

Que bom voltar à criança intemporal que sempre fora até ter que deixar de ser, quando os minutos passavam devagar e as horas se distraíam em pensamentos. Foram bons momentos.

Posou o livro, recostou-se no descanso e sorriu até hoje.


Bilhetado por Brunorix às 17:38

24
Mar 09
Pede palavras de consolo e eu não tenho para escrever. Pede imaginação para as frases e eu não tenho para ditar. Pede memórias escritas e só me lembro do futuro. Pede risos de vida quando me apetece é chorar. Pede pensamentos tristes e desato-me a rir (talvez esteja atado de pensamentos). Pede assuntos sérios e digo parvoíces. Pede ternura e mancho-a de azedo. Pede agressividade e pinto-lhe flores.

Perante a candura dos pedidos, rogo pragas à parcimónia criativa da minha alma e corro pelas escadas do tempo em busca de letras. Abro e fecho portas com diversos temas, escondo problemas e destapo alegrias. A seguir construo janelas, abertas. Deixo respirar a vontade, e a verdade… mas a folha continua branca.



Dou-lhe três voltas no sentido da fantasia e sento-me no devaneio da procura. Que loucura. A necessidade da escrita torna angustiante o bater do tempo. O metrónomo da monção alvitra questões de paz podre em igreja de serventia. Quem diria.

A inocência de ser apenas branca, embora folha, faz-me rir de malvadez criativa, mas aterroriza-me a caneta da acção e nada me apetece. Acontece. Sinto passar as convicções em bandejas de apatia. Provo uma.

Seca-se-me a tinta da criação perante imaculada folha. Olho para ela mais uma vez, e sem saber o que fazer… faço apenas isso mesmo. Preencho-a.

E a mim também.

Bilhetado por Brunorix às 18:20

23
Mar 09
De novo, grito as entranhas da revolta mergulhado em sabor amargo de injustiça. As lassidões circunstanciais de delito infligido, cravam na carne da desonra setas de inverdades descontextualizadas de razão.

Aguentar faz parte do jogo, seguir em frente também. Mas perante a impotência da demonstração, fica a certeza de sabermos no interior o que está bem, o que é justo. Curto? Depende da dimensão do consolo.



Percorrer os campos da vergonha, agarrado ao vento do descontentamento, gritando a peito aberto contra a sacanice do próximo, acalma por momentos a revolta. Mas ela volta, e pudemos contar sempre com mais facadas de onde não esperamos. Entranhamos?

Como em todas as histórias sem final, cada capítulo ajuda a esquecer o anterior. A desilusão passa em cada frase e vai-se escondendo do pensamento. No entanto, e a qualquer momento, folheiam-se alguns passados ultrapassados – ou não – para lembrar que em qualquer orquestra há instrumentos desafinados.


P.S. – Dedicado à desigualdade e às chefias idiotas, aos árbitros que roubam e a outras cotas.



Se sofreu uma injustiça, console-se; a verdadeira infelicidade é cometê-la.

Demócrito

Demócrito de Abdera
(460-370 a.C.)


21
Mar 09

Abraços de cultura soam a poesia morta

Em dia que deviam ser todos.

Cantam-se primaveras, edificam-se palavras

Marcham-se poetas e soltam-se amarras

Aos molhos, aos montes e aos toldos.


Soam flores de pouca leitura

Em campos de obras esquecidas.

Colhem-se poetas de fachada

Plantam-se literários de gabinete

Lambem-se livros em falso minete.


... E então?!



Então...


Ergam ao sol a magia da letra

Façam da vida revolta de poeta.

Dancem abraços, gritem convulsões

Esqueçam agravos e cantem liberações.

Pois na volta do amanhã está a cultura rabeta.


E quando do imposto lerem despesa

Agarrem-se aos cornos de qualquer poesia

Militem palavras de forte presença

Apaguem esforços de frase vazia.

Se da merda já lida riscaram vinhetas

Façam da poesia a maior das punhetas.


... E depois?!



Depois...


Celebrem esta Primavera de poetas

Em país de grandes e dias esquecidos

Encham o peito de todas as letras

Abracem autores, fiquem embevecidos.

Que este dia cheire à força das minhas tretas

Em registo de flores e poesia de profetas.


Bilhetado por Brunorix às 16:05

20
Mar 09
Puxou o casaco para os ombros. Estava frio na sua alma e a pele começava a ficar arrepiada de desânimo. Deu mais uns passos em direcção a sabe-se lá onde e não conseguiu aquecer. Sentia que falhava a sua missão e toda a razão de existir não parecia fazer qualquer sentido.

Percorreu ruas perdidas sem mapa de vontade e deixou-se embalar nas lágrimas do desespero. As forças escorriam pela sua determinação abaixo, a respiração prendia em cada passagem e o pensamento desfazia-se em flocos de angústia. Sentou-se. Era o último reduto da sua condição. A última réstia de energia esvaía-se entre os dedos do destino e desaparecia nas ondas da inevitabilidade.

Encolhida no frio da desistência começou a desaparecer nos escombros da estagnação enquanto o relógio temporal se recusava a parar para dar uma ajuda. O mundo passava e ignorava aquela presença, com a indiferença de quem não quer saber. A vergonha instalara-se nas circunstâncias e não permitia sequer um olhar.




Duas ruas mais abaixo, um raio de sol espreitava à esquina da oportunidade. O dia começava a nascer e sentia fluir no seu todo a energia da esperança e a liberdade da vida. Timidamente percorreu as ruas, trocando o cinzento e o frio da noite pela luz quente da convicção. Era um raio jovem e ainda não tinha muita experiência.

De olhos cada vez mais atentos às agruras da vida, reparou num aglomerado de tristeza tolhido a um canto. Aproximou-se com a cautela da inexperiência e começou a levantar questões, a escavar problemas e a destapar amarguras. Sentiu-se crescer no que tinha que ser e tornou-se adulto na intervenção.

Debaixo de todo aquele frio de existir, estava a maior e mais encolhida angústia que alguma vez vira. Ajudado pelo dia mais velho estendeu a mão e tocou-lhe de esperança. Não houve reacção. Tocou mais uma vez e nada. Decidiu abraçar aquele desamparo com toda a força da sua juventude luminosa. Alguns aquecimentos depois, sentiu movimento.

Sorriu na confiança do objectivo e forçou-a a levantar-se da desistência. Um cheiro intenso a tristeza caiu no chão e desapareceu entre as pedras de outrora. Abraçou-a novamente, ainda com mais esperança e deixou que renascesse de júbilo. O dia ocupava já todas as ruas e as últimas tristezas escondiam-se no passado.

Aquela estrela apagada iluminava-se de novo e com o agradecimento no olhar deitou fora o casaco e deixou sorrir a alegria do vento nos seus ombros. Partiu para o destino perdido e nunca mais deixou de brilhar.




P.S. – Vai sempre haver um amanhã!

19
Mar 09
Inocentes pinceladas coloriram um serão de ternura familiar. A velocidade estonteante com que do ontem fazes amanhã, transpira na tranquilidade do olhar e foi sentida em cada esbracejar de contentamento, em cada colo acolhedor e em cada imagem apadrinhada. A distância da vida não aproxima os momentos e a fonte da nossa relação não enche caudais de mais partilha, mas quando jorra é esta maravilha…



Obrigado por teres vindo. Na galeria das boas memórias ficará para sempre este quadro sorridente de simplicidade e este brilho de estares viva de esperança. Ainda bem que vieste acompanhada, porque foi muito bom sentir um saudável respirar e admirar a palete de cores do vosso sonho lindo.

A alegria de simplesmente existir é a dádiva do amanhã. E isso, celebras em cada sorriso e em cada olhar. Obrigado por teres iluminado as passagens estreitas com cores de envoltura.

Bilhetado por Brunorix às 18:03

Somos tão fúteis que nos importamos mesmo com a opinião daqueles que não nos importam.

Marie von Ebner-Eschenbach


Marie Freifrau von Ebner-Eschenbach
(1830-1916)

Bilhetado por Brunorix às 13:21
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18
Mar 09
Cheirava-me sempre a dores nas costas. O meu Avô pagava-nos a 25 escudos o balde e uma semana de cheiro dobrado rendia aí uns 4 ou 5 baldes com brincadeira à mistura. Coisa pouca para tanta dor e tanto cheiro, que por sinal ficava nas mãos e no resto das férias. O calor Ribatejano no Verão da memória, não ajudava a que desaparecesse.

Algumas notas perfumadas de cansaço, no dia de receber ajudavam a esquecer o cheiro pegajoso e frutado que se entranhava nos lombos vergados. Como a vontade era pouca, um Verão de cheiro intenso e dorido, rendia 150 a 200 escudos. Enjoei o rendimento.

Pelo sim, pelo não hoje em dia não como figos… é que ainda me doem os cheiros das costas.



(Márcia e Marol deitadas na praia quando passa um barco)

Marol – Ai Márcia, olha só aquele borrachão a acenar com uma bandeirinha ali no barco!
Márcia – Onde? Onde?

Marol –
Ali aquele da tanguinha branca. Ai filha e eu sem nada para acenar também.

Márcia –
Ai não sejas parva, acena o cu Marol.



Bilhetado por Brunorix às 11:14

17
Mar 09
Os leitores, membros, visitantes e amigos deste Clube são soberanos, e exerceram o seu direito de voto. Democraticamente escrevendo, e segundo 60% dessa mesma soberania, a próxima escolha recairá sobre O Leitor de Bernhard Schlink.




Sinopse:

Michael Berg, um adolescente nos anos 60, é iniciado no amor por Hanna Schmitz, uma mulher madura, bela, sensual e autoritária. Ele tem 15 anos, ela 36. Os seus encontros decorrem como um ritual: primeiro banham-se, depois ele lê, ela escuta, e finalmente fazem amor. Este período de felicidade incerta tem um fim abrupto quando Hanna desaparece de repente da vida de Michael.

Michael só a encontrará muitos anos mais tarde, envolvida num processo de acusação a ex-guardas dos campos de concentração nazis. Inicia-se então uma reflexão metódica e dolorosa sobre a legitimidade de uma geração, a braços com a vergonha, julgar a geração anterior, responsável por vários crimes.

Perturbadora meditação sobre os destinos da Alemanha, O Leitor, é desde O Perfume, o romance alemão mais aplaudido nacional e internacionalmente. Já traduzido em 39 línguas, a obra foi adaptada ao cinema, num filme nomeado para cinco Óscares. Para além disso, este romance foi galardoado em 1997 com os prémios Grinzane Cavour, Hans Fallada e Laure Bataillon. Em 1999 venceu o Prémio de Literatura do Die Welt.


Preparem os estômagos da leitura, afinem vozes de opinião, vejam o filme (antes ou depois, como preferirem porque neste caso até é muito fiel), partilhem angústias e sensações, ansiedades e outras verdades. Mas, sobretudo leiam. Leiam muito e agradeçam todos os dias não terem que atravessar o deserto do analfabetismo. E de preferência comentem.


P.S. - nas livrarias agora encontram assim...




16
Mar 09
Inchados os peitos que caminharam por belgas ruas de chocolate alado, na senda de outros sabores e odores e outras dores. Ruas cinzentas de um frio, a espaços, bonito deixaram parcas memórias, mas trouxeram algumas histórias. O cruzamento com uma Bintje Pave de Boeuf



deixou recheio de contentamento em chuva de sabor. O já molhado cabelo, suspirava pelo chapéu esquecido, diria até não trazido, em ruas de tom também chocolate. Uma espécie de African Town na capital da Europa sugeria mudanças capilares com metros e quilos de cabelo vendido ao preço de uma qualquer uve mijone (conhecidíssimo provérbio belga), em porta sim porta sim rua fora.



O Museu trabalhado e no qual se passaram dois dias de simpática troca de realidades, antagonizava da imagem o partido sanitário (não, não é um partido politico belga) em honra da história, a natural.



Já no interior, um compenetrado funcionário estabelecia a ponte tecnológica entre uma PSP (Play Station Portable) e os esqueletos fossilizados mesmo atrás dele, com mais de 130 milhões de anos. Concerteza jogava Dino Crisis na tentativa de melhorar a sua performance em caso de revolta de algum dos enjaulados.

Bilhetado por Brunorix às 17:39

Se o gajo que nos apalpa no aeroporto, para evitar que façamos pirataria do ar por causa de uma moeda no bolso, com a cara a 5 cm da nossa diz qual é o perfume que estamos a usar, isso é impulso? Ou os seguranças Belgas são apenas simpáticos?




Se aquelas empregadas de restauração com curso de primeiros socorros, e bem vestidas, que servem aquelas pseudo-refeições a grandes altitudes, mudam a nossa mala de posição várias vezes, e falam constantemente do nosso delicioso saco de chocolates belgas e à saída ainda perguntam se estão todos, isso é impulso? Ou eles também só comem o que nos dão e têm fome?




Bilhetado por Brunorix às 13:59

Eu, a admirar um prato de Vogelnestje Met Spinaziepuree En Mosterdsauje: Bem, pelo menos já posso dizer que provei comida típica.

Ex - superior hierárquico sentado à minha frente versado nas artes de engenharia: Típico não, isso é tipiquíssimo!



P.S. – Para além de típico, era muito bom. Depois junto foto.

P.S.2 - Aqui vai ela...


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