Escritas do fundo do mar

11
Mai 08



Sacos, sapatos, bolas e contratos. T-shirts e velharias, calças, guardanapos, ferros e outros trapos, memórias e o que já não querias. Emoções, confusões, camisolas e calções, euros e trocos dados, vazios e aglomerados, pasmaceira e medalhões! Novidades e saudades, cuecas e meias para todas as idades, bugigangas e flanelas, cotelês e gangas, e tudo o mais que já sabes!

Caídos os pudores da socialite vigente, de tudo senti um pouco e da experiência muita, muita vi gente: foram betos e doutores, aleijados e safados, nacionais e estrangeirados, sacanas e drogados, condecorados ou sem louvores, curiosos e experimentados, pobres e abastados, de passagem ou ali plantados, malfadados e outros estupores! A todos vendi, a todos senti, a todos conheci e falei. Não sei de onde vim, mas sei que cresci assim, na experiência do que ali fiquei.

Fiz do cedo a necessidade da partida e ainda a noite era, quando da cama descolei. Passei do frio ao que depois se viu e chuvi da experiência, a veterania da amizade. Cruzei a fronteira da necessidade e passei para lado da vontade, a efectividade do teste que vi e senti. Troquei capas de ajuda por toldos de tradução, vendi esquecimentos de dor aguda e a nenhuma oferta disse que não. Vendi o passado para ajudar o presente e senti no acto dado, a marca do que já foi e agora não se sente.

Senti na chuva o frio do sol e aqueci na neblina da esperança a secura da mercadoria. Ajudei pró lado, vendi prá frente, fiz do molhado o valor do corpo quente. Sei que quase dei, mas senti que aproveitei nas 12 horas que ali passei, o reconhecimento das realidades que outrora ouvi e que agora já sei!

Dei mais um passo, na direcção do que é preciso. Para sentir que tudo faço, quando da vida não sinto cansaço e quando do que sei, faço sorriso! Foi assim que vendi e olhei, o cheiro da inclinação de uma cidade, que do meu berço fez a idade e da minha vitória o testemunho que dei.


- Tens calças, mano?
- Tenho de tudo, bacano!

- É só para trabalhar.
- É escolher e levar!

- Voltas cá prá semana?
- Se a vontade não me engana!

- Esse padrão já não veste.
- É do tempo, tá agreste!

- Este se calhar aperta.
- Fica a 5, é a nota certa!

- Lá em cima táva mais barato!
- Já viu bem a qualidade do sapato?!



P.S. – Se da vontade minha eu fosse, fazia da música 8 ali do lado, este meu fado, para criar o ambiente que a música nos trouxe.


Bilhetado por Brunorix às 17:33

tu tens talento. Está muito giro este post. parabéns
essenciasdepensamentos a 12 de Maio de 2008 às 11:52

Os posts que foram lidos no programa estavam óptimos! Os meus parabéns pela forma como escreve.
Cumprimentos
daplanicie a 12 de Maio de 2008 às 12:25

Eu diria mesmo, olha que belo post!
Carlos Barbosa de Oliveira a 12 de Maio de 2008 às 16:01

A veterania da amizade é qualquer coisa de belo: o conceito e o modo como foi escrito, Lindo!
Anónimo a 13 de Maio de 2008 às 12:57

Parabéns pelo post.
A melhor recompensa para qualquer leitor é sentir que há vida para além das palavras!
A passagem: "Senti na chuva o frio do sol e aqueci na neblina da esperança a secura da mercadoria. Ajudei pró lado, vendi prá frente, fiz do molhado o valor do corpo quente." está simplesmente genial!

Obrigada;)
Anónimo a 13 de Maio de 2008 às 19:30

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